quinta-feira, 26 de julho de 2007

Pais de perna aberta ....


Ora aqui vai um assunto que há muito gostava de lançar aqui e que me vai preocupando.

O Zé Borges, o baixinho, diz que nós ( o resto da COMORG ) somos ‘pais de perna aberta’ . Não é que ele as tenha muito fechadas mas acho que é uma forma de se referir a uma forma de educar que pegou muito moda depois do 25 de Abril …

A forma como nós ( os kotas actuais ) se relaciona com os seus filhos, os tentou educar , é imensamente diferente com o que aconteceu entre nós e os nossos pais. O conflito de gerações está longe de ser tão evidente. Não há tanta diferença relativamente a questões políticas, ou sexuais, ou de forma de ver os problemas gerais do mundo actual. Atrever-me-ia até a dizer que, em alguns casos, haverá até kotas com ideias mais ‘avançadas’ que os respectivos progenitores …

Mas enfim, não é bem isso que eu gostava de ver falado aqui .. O que eu gostava era que a jubentude que por aqui anda desse a sua opinião sobre a forma como se relaciona com os papás. Se acha que somos demasiado severos . ou demasiado liberais …

Eu sempre me guiei pelo principio de que o Gonçalo e a Maria eram capazes de assumir a responsabilidade dos seus actos e , principalmente a partir de determinada idade, achei que eram eles que deveriam definir as suas vidas, quer nas coisas mais pequenas como seja a hora de deitar, ou se deviam ou não ir tomar um café a Espinho, quer em relação a decisões masi importantes como seja o evoluir dos estudos deles ou os planos de vida deles.

Quando era novo fartei-me de ‘mentir’ aos avós. Umas vezes por boas causas, outras por causas menos boas, o certo é que foi a forma que encontrei de dar a volta as questões e conseguir fazer o que queria realmente fazer. Havia assuntos em que não era possível o entendimento e achava que o melhor era nem sequer falar, esconde-los e seguir em frente.

Gostava de falar mais com o Gonçalo e a Maria e gostava que eles falassem mais comigo. Vendo de longe acho que também gostaria de ter falado mais com o Avô. Por incrível que pareça foi depois de já ter a minha vida encaminhada, já estar fora de casa que fui falando mais com ele.

Sempre achei que a confiança ( e orgulho ) que nós depositávamos no Gonçalo e a Maria deveria ter da parte deles uma resposta semelhante, isto é, confiança em nós e tb orgulho em nós. Nem sempre as coisas são fáceis. Nem sempre falar e transmitir é fácil mas, apesar de tudo, apesar das dificuldades e das incertezas de cada um, das angustias em relação ao futuro, acho que seria sempre um Pai de perna aberta … lol ….

Contem coisas … arrasem-nos …. Sei que é um tema … complicado .. mas …

4 comentários:

Activix disse...

Já que ninguém toma a iniciativa de responder, aproveito a oportunidade para fazer um intervalo no trabalho que estou a fazer, fumar um cigarrinho(merda e a ultima mortalha) e escrever umas linhas.
Ser pai de pernas abertas e algo de que te devias orgulhar, já que uma relação entre um filho e um pai baseado em mentiras nunca poderá ser uma relação saudável, dai a fragilidade do praticamente defunto conceito clássico de família. Todo o pai, e todo o filho, gostaria de poder falar mais e melhor um com o outro. No entanto e impossível negar aquela barreira invisível que nos separa a nascença. O “Pai”(ou mãe) como primeira figura de autoridade nunca perde esse cariz. O instinto natural impõem uma certa distancia ate que o filho chegue a uma certa maturidade e tornar-se indiferente a autoridade paternal. A relação complica-se ainda mais quando se trata de dois indivíduos que se conhecem tão bem, expostos as qualidades e defeitos de um e de outro.
Talvez ser pai e compreender que a barreira existe e que apenas poderá ser quebrada com um pulo voluntário do filho(a). A tarefa dum pai e aceitar que não poderá controlar essa relação, ou esperar que a confiança seja facilmente retribuída . O importante e manter “as pernas abertas” já que o pulo voluntário vem sempre quando menos se espera.
A minha relação com os meus pais foi tudo menos normal, no entanto o tempo cura tudo, e hoje em dia a minha relação com eles e bem mais saudável do que a relação que muitos amigos meus tem com os seus pais. A distancia física entre mim e a minha mãe, e a distancia psicológica entre mim e o meu pai, deu-nos espaço para melhor reflectir e a barreira vai-se diluindo com o tempo. Felizmente mantiveram sempre as “pernas semi-abertas”...embora cada caso seja diferente, por necessidades e personalidades diferentes.
Esta e a perspectiva de um filho que nunca foi pai...e que precisa de ir comprar mortalhas.
Hasta.
El nando

Jinha disse...

Eu concordo com o Zé Borges. Realmente a nossa geração caiu talvez no outro extremo e, pelo menos no que a mim se refere, os resultados não têm sido muito animadores... lol
Vejo também isso nas escolas, que reflectem também essa política educativa da escola "de perna aberta". Os profs da minha geração conseguem ter talvez mais sucesso na escola, como educadores com mais experiência, do que em casa. Os mais novos vêem-se às aranhas para segurar os alunos mais difíceis e até acho que não os seguram mesmo... Também não sei se isso acontece porque haverá hoje em dia muita gente que é professor como recurso e não tem muito jeito nem paciência para lidar com a miudagem que lhe aparece pela frente. O que é preciso é encontrar um equilíbrio entre a atitude "perna aberta" e a "autoritária" e conseguir manter sempre essa linha. Na escola ou em casa, alunos e filhos devem saber com o que contam, conhecer as regras. O que acontece é que é tudo muito "flutuante" e nós, adultos, não conseguimos manter durante muito tempo essa linha bem definida por razões muito diversas: falta de tempo disponível, falta de persistência, cansaço, egoísmo, um certo sentido de culpa, medo de ser demasiado rígido, medo de que tudo fuja do nosso controlo e descambe, divergências de opiniões entre pai/mãe (ou diferentes profs)... Tenho ideias mais seguras relativamente à escola do que no campo pais/filhos. Sei que há uma crise de autoridade (que chavão!), muito facilitismo resultante duma política educativa que acha que tudo deve ser aprendido de forma lúdica ... Temos medo dos maus resultados e, em casa, queremos dar tudo aos nossos filhos, tirar-lhes os escolhos do caminho... Não queremos que sofram por não terem insucesso e apoiamo-los em demasia ou então recusamos-lhes determinados "voos" por insegurança. Há sobretudo muito silêncio na relação pais/filhos. É tudo muito pela rama, não se vai ao fundo das coisas, perde-se a paciência ou não se fala pura e simplesmente para evitar problemas.
Apesar de tudo nós, Vasquez, tivémos uma educação bem pouco impositiva (sobretudo a partir dos 17/18 anos)e vivemos num tempo em que pudémos escolher os nossos caminhos sem grande crise. Contámos sempre com o apoio dos pais (avós), mesmo quando houve situações fracturantes que conduziram a divórcios e novas relações familiares.
Será que a minha geração, a geração hippy, estava preparada para se relacionar de forma aberta, tranquila, positiva, com os outros, quer fossem família/amigos/sociedade, como tanto apregoou?

JustAnother disse...

A Joao lancou-me o repto de vir ca visitar o blog familiar e deixar uma "posta de bacalhau"...

Os meus pais nao foram, de todo, pais de pernas abertas. Eu tinha horarios, tinha controlo sobre o mais essencial enquanto crianca (estudar, brincar, comer, ver tv...). Sabiam sempre por onde andava e com quem andava. Mas nunca foram opressivos, agora que olho para tras. Essa e a verdade.

Claro que lhes menti algumas vezes, mas conheco muita gente com pais mais permissivos a quem mentiam a torto e a direito.

O controlo afrouxou quando entrei para a Faculdade. De certa forma, creio que eles acharam que tinham conseguido fazer um bom trabalho em por-me no caminho certo, e que a partir dali, era comigo... sai, passei, fiz grande parte da Faculdade a trabalhar e (quase) tudo sem lhes pedir autorizacao ou conselho... eram mais informados do que outra coisa. E sempre respeitaram as minhas opcoes, mesmo aquelas que lhes custavam.

Nao conheco as virtualidades dos pais de pernas abertas, mas os pais tambem la estao para ensinar que existem barreiras (que nos tentamos continuamente derrubar) e regras. Desde que nao se esquecam e demitam do seu papel formativo, creio que a latitude de actuacao e grande...

E como a minha "posta" ja vai alta demais, rego-a apenas com um fio de azeite e deixo um link para um texto que eu acho que tem a ver com a discussao em cima da mesa:
http://familia.aaldeia.net/paismaus.htm

Marta

Anónimo disse...

Apresento-vos a minha grande amiga Marta Calado, que (felizmente) de Calada nao tem nada e quem achei que podia ter uma palavra a dizer sobre os assuntos aqui debatidos. A Marta e um companheira de guerra dos tempos ACA (Lisboa) onde a tortura laboral era diaria mas onde se desenvolveram relacoes inesqueciveis (talvez tenha sido o espirito de sobrevivencia...). A Marta deu o grito do Ipiranga ( o ultimo) ha mpuco tempo e largou uma vida confortavel em Lx para ter uma vida ainda mais confortavel em Amsterdao (alias, aqui esta um bom contacto para a Maria, depois explico-te Marta!).

E por acaso ainda bem que intervieste porque quando li os posts dos meus tios lembrei-me de ti e de outras que, pensava eu, tinham tido um educacao (eu diria) rigida!!! E engracado que nos, passados muitos anos, venhamos agora aclamar as maravilhas da dureza dos pais, da imposicao de barreiras e limites..na altura nao curtiamos muito (alias deviamos nunca ter escrito estas palavras que serao com certeza profanadas quando chegar a nossa vez mas ok...siga!

Mas ha uma coisa em que concordo contigo e que talvez marca a diferenca entre a nossa geracao e a da geracao dos meus primos que para tua informacao (Marta) estao agora na casa dos 20-25 digamos. E que precisamente nos cortamos o cordao umbilical aquando da entrada da faculdade, ou melhor, aos 18. Tu pelas tuas razoes comecaste a trabalhar e a tratar de ti ate porque provavelmente achavas que eras a pessoa mais qualificada para o fazer. Eu, bem essa minha independencia tinha comecado uns anos mais cedo, aquando do divorcio dos meus pais que os baralhou tanto que durante um quase decada estiveram incapacitados de ser pais (coitados, digo isto com todo o respeito e amor, mas e totalmente verdade). Eu lembro-me perfeitamente de apartir do 13/14 anos, ser eu a fazer as inscricoes na escola (pedia o cheque e pronto), ir ver as notas (os meus pais mal me perguntavam quanto mais confirmavam se eu estava a dizer a verdade), escolhi a minha faculdade/curso, planeva as minhas ferias sem intervencao qualquer parental Alias, o apogeu maximo foi quando a tragedia se abateu na minha vida (da qual ainda hoje me estou a recuperar) e chumbei no ano zero na Catolica (sacrilegio) e quando os meus pais (tentaram) esbocar o primeiro desgradao, o promiero...o que...eu disse meu amigo/a, voces ha muito tempo que estao aqui por isso, sorry mas voces nao sao parte interessada, o problema e meu!! Tirando a malcriadice combinada com uma crise de adolescencia aguda, era assim que eu via as coisas, que eu controlava a minha vida e que tb controlava quando ela corria mal arcando assim com as consequencias.

Nao prentendo com isto criticar ora os meus pais ou os pais de perna aberta, nem dizer que um sitema e melhor que o outro. Curiosamante eu acho que hoje em dia tenho imensas deficiencias emocionaios (que expressao tao Woodyolesca!!) dessa altura em que tive que crescer tao rapido e ser tao adulta e hoje sinto-me muito mais dependente e insegura do que nessa altura, digamos que estou agora a viver a parte ma da adolescendcia (ok, obviamnete que na altura passei por tudo que um adolescente de respeito passa, o mau-humor constante, as borbulhas, as reacoes exarcebadas, etc..) nao passei foi pelas insegurancas e faltas de confianca e principalmnete os sentimento de nao se saber o que se quer e isso hoje...e o parto do dia.

Agora (e aqui fica um recado especial aos meus queridos tios, tias e primos adorados que para mim sao como se fossem meus irmaos) eu acho que os primos em geral sao demasiado apaparicados e mimados por voces pais! OU entao eu e que foi mal habituada mas acho que principalmente voces por quererem fazer tanto acabam por os fazer sentir "desresponsaveis" pela propria vida, actos e decisoes. Coisas como andar atras deles para ver se fizeram a incricao dentro do prazo na faculdade, se vais aos exames, etc nao da. Eu lembro-me de na altura olhar para os primos e pensar que sorte que ele/ela tem, com a mae e o pai sempre a ajudar e a fazer as coias...hoje digo que isso so os ajuda a nao crescer e a principalmnete sentirem falta de confianca em si proprios. E depois,e isso e que me proocupa e e por isso estou sempre a bater na mesma tecla, o drama da entrada na vida a serio, do tabalho, de enfrentar o mundo e ainda maior e fica sempre aquele amargo sabor na boca a indicar.."caramba..ninguem me disse que isto ia ser assim..!! Agora a educacao a la perna aberta tb tem muito de bom a dizer...os miudos escolheram provavelmente as carreiras que quiseram, tem a vida que escolheram, muita liberdade, etc..nao se percebe e porque e que nos meio disso tudo se perdeu o dialogo...fica aqui uma questao para ser discutida...!!!??

Lando aqui tb outro repto, o qual me suscita imensa curiosidade: uma vez ouvi uma miga da minha mae dizer que ter filhos e um acto egoista, porque e ligada a uma certa satisfacao pessoal de nao so propagara a linhagem mas tb a uma nacessidade de "preencher" a vida - fiquei escandilazada com isto (ate pq acho esta amiga da minha ame um bocado sinistra) - mas sinto que ha algo aqui para aprofundar - Quid Iuris?


Bjs e abracos a todos e onrigadinho Caladovsky pela intervacao.