Capitulo II – No Centro galego
O passeio de fim de tarde foi relaxante. Com o Zé Manel a comandar, o Guilherme e a Teresa procurando identificar nos mapas as ruas por onde passavam, a Margarida saltitando com um andar hesitante, talvez fruto do efeito 4horas e meia-Sansonite, eu e a Teresa procurando acompanhar a passada ritmada do grupo.
Um bairro engraçado, multi-color e multi-racial, cheio de pequenas mercearias, da cafés de origem duvidosa e de umas lojas pitorescas com uma secretária à entrada e um correr de pequenas portas de acesso a umas cabines que tanto podiam aparentavam poder ser utilizadas para fins muito diversos – desde uma simples chamada telefónica, passando por um momento de recato mais íntimo. Ainda pedi uma moedinha à Teresa mas ela imediatamente me respondeu num francês puríssimo …”Désolée …”
Dez km mais à frente, Ze Manel, que entretanto tinha tomado a dianteira de uma forma decisiva, estaca num cruzamento e começa a gesticular furiosamente enquanto olhava para cima. Corremos ao seu encontro e depara-se-nos uma rua estreita rodeada de casas antigas de 4 ou 5 andares, relativamente bem conservadas, em que predominava o estilo arte-deco.
Guilherme e Teresa comparavam os seus apontamentos com a visão das janelas e seus vitrais e com as pequenas varandas que as engalanavam. Zé Manel, boquiaberto e de careca a brilhar, estava fascinado. Seguimos caminho de regresso a casa da Pascale onde encontramos uma algazarra à porta. Era o grupo de Diniz que tinha acabado de chegar e procurava definir o que iriam fazer a seguir. O Diniz propunha um museusito antes do jantar, o Zé Luis preferia provar 12 ou até 14 das 600 variedades da famosa cervejinha belga, a Tuxa olhava nervosamente para a Rita como quem pensa “Será que o soutien dela me vai servir …?”, a Carminho , olhando de soslaio para os marroquinos e argelinos que passavam na rua vestidos com túnicas compridas pensava em como convencer o A. Maria a comprar uma igual. Este perguntava ao Fernando, que estava à porta, se havia alguma mesa de jogo desocupada … A Rita , pensativa, reflectia …”Não lhe vai servir de certeza …..”
Quando chegamos, o ZManel tomou a iniciativa imediatamente e propôs que fossemos dar mais uma voltinha … Pedi que esperassem porque precisava de ir ao WC … Entrei e o Fernando disse-me para não usar o da cave para não acordar o João e para ir ao do 1º andar … Somente 100 degraus … concordei … Cheguei ao 1º andar .. azar … Wc ocupado … nada a fazer senão subir e descer mais 333 degrauzitos ..( acumulado = 1299 ) e ir ao do 3º. Apertadinho como estava voei pela escada e lá me aliviei como pude … Estas escadinhas estavam a dar-me cabo das rótulas ….
Quando regressei à entrada já não estava ninguém … Ainda consegui vê-los a dobrar a esquina em passo muito acelarado, desaparecendo do meu campo de visão. Encontrei-os meia hora mais tarde, na rua das casas Arte-Deco, especados a olhar para as janelinhas e varandas que tanto fascinaram o Ze Manel. A custo tirei-os de lá e regressamos a casa da Pascale.
Instalamo-nos na sala afundando-nos no sofá. Zé Manel fala com a Pascale sobre a rua cheia de casas antigas de tipo Arte-Deco e fica informado que a dita rua terá sido comprada por um escritor francês famoso traumatizado com o que passou na Guerra. Mais um ponto de interesse, pensa o Zé Manel. Gostava de ver novamente as casas, agora com esta perspectiva.
Por baixo de nós, na cave, o Joao dormia, insensível ao barulho que fazíamos na sala .. De vez em quando uns gemidos roucos mais fortes abalavam o chão de madeira da sala.
Fui espreitar à cave e, apesar da luz difusa, o espectáculo era digno de se ver. O Joao decidira desfazer a mala. 8 pares de sapatinhos de verniz adornado com uns berloques amaricados espreitavam por baixo do sofá. Em cima deste, numa mistura que tinha tanto de confusa como de explosiva, enrodilhavam-se 7 pares de cuecas, 8 boxers, 3 com ursinhos vermelhos e 5 com coelhos azuis, 18 pares de meias verdes, 4 gravatas e 6 lenços de pescoço a condizer .. com as boxers. Meio escondido debaixo da almofada pareceu-me ver umas rendinhas de um soutien .. roxo …. Joao arfava procurando retirar os 5 pares de calças do fundo da mala. As 16 camisas estavam convenientemente penduradas no candeeiro.
Eram quase 19h, o jantar marcado para as 20h, era altura de nos prepararmos. Ponderando os pós e contras de tomar um banho retemperador lá me decidi a subir e descer os 433 degraus ( Acum = 1723 ) que me separavam do Quarto de Banho. A verdade é que a potência do chuveiro e a qualidade da água quente compensou o esforço.
Chegado ao R/C estavam todos à porta prontos para partir. Estranhei o sorrisinho malandro que tinham estampado na cara.
“Oh Luis, vai-me buscar o casaco que está no quarto “, diz a Teresa , passando-me a mão pelo pêlo .. e …. o acumulado passou para 2156 …. De regresso já me apetecia tomar banho outra vez e segui atrás do grupo ainda a tempo de evitar que o Ze Manel nos conduzisse para a rua cheia de casas antigas de tipo Arte-Deco comprada por um escritor francês famoso traumatizado com o que passou na Guerra.
À porta do restaurante o Ze Manel Pestana e a Kika esperavam-nos à porta. Entramos e a juventude já estava instalada olhando avidamente para o menu. Acompanhei a conversa entre o dono do restaurante e a Pascale e o Fernando. O dono começou por me parecer flamengo, depois pensei que fosse Belga ou até Francês, finalmente percebi que era um brasileiro que, por ter vivido 3 semanas no Minho, tinha muita experiência na comida Galega
Lá nos sentamos convictos da escolha correcta ( a juventude alinhou quase toda pelo Borrego – a pensar no arroz, os mais maduros, com um superior conhecimento das coisas da vida, optaram pela Paella, que tinha o arroz garantido ), a beber um branquinho fresco e uns aperitivos que desapareceram rapidamente.
No fim dos aperitivos fui com o Tiago e o Ruizinho buscar a Joao à Estação do Midi. O Zé Manel, sempre activo, sugeria-nos que no caminho passássemos pela rua cheia de casas antigas de tipo Arte-Deco comprada por um escritor francês famoso traumatizado com o que passou na Guerra.
Em passo rápido , porque a fome apertava, chegamos a estação a tempo de ver a Joao a falar ao telemóvel, desligando-o quando nos viu …. Muitos beijos e abraços e a Joao diz que o Zé Manel lhe telefonou a dizer para, no regresso para o restaurante, passássemos pela rua cheia de casas antigas de tipo Arte-Deco comprada por um escritor francês famoso traumatizado com o que passou na Guerra.
Regressamos aidna a tempo de. No caminho, entrar num restaurante tuga a ver quanto estava o jogo do glorioso FCPorto. Tudo sob controlo ….
No restaurante, a confusão instalara-se …. Uma pequena amostra do que iria ser uma minúscula bola de neve transformada em avalancha que iria abalar o dia a dia dos brochelenses. Os maduros, sentados, comiam calma e alarvemente a paella .. a juventude, de pé, olhava incrédula para os pratos colocados na mesa e, apreciando o pedaço de carne que jazia no seu centro, lamentava-se pelas 5 batatas … palha que o rodeavam. Pior que isso, arroz … nem vê-lo …. A chegada da João foi determinante para acalmar os ânimos dos primos mais novos. Usando o seu poder natural de persuasão, e com a promessa que no dia seguinte ao jantar se desforrariam no arroz do casamento, lá os convenceu que uma batalha perdida, por vezes, é o custo de uma vitória na guerra. Para desanuviar foram todos para a Sala de Chuto …
O regresso a casa foi feito calmamente a digerir a paella. Mais uma vez, Ze Manel à frente. Simulando perder-se no labirinto de ruas e ciente que todos o seguiríamos fomos dar com ele ( e connosco ) a observar as casas antigas de tipo Arte-Deco da rua comprada por um escritor francês famoso traumatizado com o que passou na Guerra.
“Nunca as tinha visto de noite ..” , disse ele para se justificar … Finalmente chegamos a casa da Pascale. Logo que entramos, o Joao diz que está cheio de sono e, olhando de soslaio para o par Teresa-Guilherme, diz que vai indo para a cama. Jubilando, Teresa diz “ Oh Guilherme, vai lavar os dentinhos …. A noite vai ser longa e amanhã há muito que andar ..”
Atento, o correcto Cruz imediatamente protestou.
“Mas , porque é que é a Teresa-Guilherme que ficam na cave …? .. Porque não somos nós, que viemos por Frankfurt e conhecemos o João há mais tempo?….” A muito custo o Fernando conseguiu acalmá-lo, com a promessa de, na última noite, lhe assegurar que o João ficaria no quarto dele …
A ascensão para o quarto foi penosa ( Acumul = 2589 ) mas, por fim, lá nos deitamos na cama confortável.
A manhã acordou soalheira e fomos recebidos na cozinha por baguettes revigorantes. O casamento civil era às 11h. Zé Manel, nervoso mas com o tradicional bom humor matinal, convencia a Margarida, também de bom humor, que era preciso saírem às 9h sem falta porque ainda precisava passar por um certo sítio.
O registo civil foi um sucesso. O primeiro contacto com a família e amigos da Pascale foi um êxito, pela simpatia que revelaram e pela paciência que demonstraram na compreensão do nosso francês. Particularmente o pai da Pascale ainda agora deve estar para perceber o que é que o Zé Manel queria dizer quando lhe confidenciava:
“ Est ce que vous connaissez , tout prés de la maison de Pascale, une rue pleine de maisons anciennes du type Arte-Deco , qui a été achetée par un fameuse poète français traumatisée avec lá guerre? »
Começamos por nos juntar no átrio de entrada fazendo duas filas para a saída de um casal gay que acabava de dar o nó. O milho voou sob as nossas cabeças projectando-se sobre o feliz par que, aos gritinhos, corria pelas escadas de mão dada. Encostados à parede, um pouco afastados da cena e com ar sonhador, Teresa-Guilherme e João contemplavam o feliz idílio com um misto de inveja e esperança que, em Portugal, os casamentos de trios chegassem rapidamente.
Uma sala deslumbrante pela sua beleza e pelo conteúdo histórico, uma juíza, madura mas bem tratada, enfaixada de dourado, e que foi objecto de olhares a roçar o libidinoso por parte de outros maduros presentes, nem todos tão bem tratados.
Ao som da música de Vangellis, Pascale e Fernando comandavam o cortejo que entrava na sala. Ele, qual Gueterres a dar entrada no Coliseu dos Recreios de Lisboa, ela consciente e determinada no passo que ia dar.
A cerimónia foi simples, mas bonita. Um pequenino incidente, no entanto, ameaçou a sua parte final. À saída, como é tradicional, os noivos foram bombardeados com arroz de qualidades variadas. Desde o luxuoso e exótico Basmatti, até ao normal Carolino-Agulha, passando pelo mais ordinário Arroz Trinca tudo voou sobre o casal. Ao primeiro arremesso um bruááá surgiu do lado da juventude que assistia calmamente ao desenrolar da cena. Alguma agitação dos mais novos, um esboço de protesto pelo desperdício de tão nobre acompanhamento, um grito rouco ao fundo … “ Isso é pérolas a porcos .!!!” e , mais uma vez a diplomacia da Joao a funcionar como tampão da juventude imberbe e revoltada, apesar de não ter conseguido impedir uma invasão , e posterior expulsão, dessa juventude irreverente de um Restaurante próximo.
Cumprindo antigos rituais da Igreja do Santíssimo Sacramento, a Lena, o Xico Rangel e o Xico Fialho apresentaram-se atempadamente ao Santo Sacrifício da Saída. Para alguns, a tradição mantém-se um valor inquestionável … BEM HAJAM ….
A tarde passei-a com a Teresa a ajudar a Joao a controlar os ímpetos dos mais novos. Gastamos energias a andar a pé, exorcizando a raiva e a fome de arroz numas Pitas Gregas, bem próximo da Grande Place.
O fim de tarde pôs-se serenamente e nada faria prever os acontecimentos que se viriam a seguir ….
Próximo Capítulo: Match Point no Clube de Thénis ….