Então vamos lá a ver se mando umas postas ….
Ver as eleições já não é o que era … Ainda me lembro que quando estava a ver uma delas em casa do João Outeiro, bem sentadinho no sofá, ao debruçar-me para pegar no copo de wiskey, senti uma dorzinha conhecida no lado esquerdo do peito e disse … ‘ Merda … outro pneumotorax ..’ .. e lá fui para o hospital ver na sala de espera o resultado das eleições ….
Também me lembro de outra muito especial …. Eu , a Tetá e a Clara ( que tinha dormido lá emcasa…) votamos no Porto pela manhã …. Fomos almoçar ao GambaMar ( que luxo ) um bacalhau à Brás ( e não à Brasquez ), seguimos para o Hospital de Gaia e terminamos na casa de saúde da Avenida da Liberdade onde nasceu o Gonçalo no meio da multidão ….
Também tenho umas recordações fugazes do nascimento do Tiago no dia em que o Ramalho Eanes foi eleito Presidente da Republica …..
Estas foram as que tiveram consequências bem directas na minha vida …. A outra que recordo bem foram as primeiras eleições depois do 25 de Abril, para a Assembleia Constituinte que haveria de elaborar a nossa Constituição … A desilusão dos PC’s pelo resultado fraco que tiveram ( comparado com o que previam e com o que o barulho da rua faria esperar ) só foi suplantada pela nossa desilusão pelo resultado quase ridículo do MÊS …
Era o tempo do idealismo … do sonho um pouco utópico .. do imaginário de uma sociedade mais justa, sem desigualdades , com oportunidades iguais para todos, com justiça ….
Também rapidamente acabei por perceber que a chamada extrema esquerda da altura, onde o MÊS acabou por se enfiar apesar de um pouco a contra-gosto dos maoistas ( UDP ) e dos trotskistas ( LCI ) e outros grupinhos do género, estava a ser completamente instrumentalizada pelo PCP que nos ‘mandava’ para a frente e depois esperava recolher os desperdícios, ou os louros da vitória. Isso foi patente no 25 de Novembro em que, até À última, o PC aguardou para ver que lado da barricada deveria tomar e acabou por isolar completamente a esquerda dita revolucionária. Caso tivesse avançado e fosse vitoriosa essa esquerda , rapidamente seria esmagada pelo PC que tomaria conta da situação com a sua enorme organização …
Mas .. enfim … não te vou maçar com esses dados …
O importante é perceber que as coisas mudaram …. Se olhares para a constituição da Asembleia da Republica logo de pois do 25 de Abril, a que resultou das primeiras eleições constituintes e a comparares com a de agora a diferença de carácter, de capacidade intelectual, de brilho parlamentar, de honorabilidade ética é … gigantesca …. É verdade que homens como Freitas do Amaral e Amaro da Costa, Sá Carneiro e Magalhaes Mota, Salgado Zenha e Mário Soares, Carlos Brito, Álvaro Cunhal e Vital Moreira tinham um nível intelectual incomparavelmente superior aos políticos de agora. Eram profissionais da política, como acontece hoje, mas a integridade, a fidelidade a ideais , a competência para os defender a todo o custo , eram insuperáveis.
E isso mudou .. porque, naturalmente, os tempos passaram e o pais evoluiu.
Muita coisa mudou tb nas mentalidades … Na minha opinião a competitividade exacerbada que se vê nos dias de hoje e que começa logo nos banquinhos da escola (muito mais do que antes) foi uma mola impulsionadora enorme para que isso acontecesse.
Porque nos admiramos que no local de trabalho as pessoas se tramem umas às outras se elas foram ensinadas desde a escola primária a ser sacanas com os colegas do lado.
Também havia sacanas nessa altura … claro … e bem sacaninhas … mas o ritmo de vida , a ideologia propagandeada todos os dias na TV era, apesar de tudo bastante diferente …
Havia a Cornélia, em vez de haver os ‘Idolos’ .. era um concurso na mesma .. com competição e prémios e tudo .. mas diferente … porque as pessoas eram, naturalmente, diferentes …
ATENÇAO – eu não sou dos que acham que a geração actual é a geração rasca …. A geração actual será sempre RASCA para aqueles (da geração antiga ou da própria) que não forem capazes de perceber que as coisas evoluem , nada fica parado … que nunca haverá duas gerações iguais e, quando isso acontecer, é mau sinal .. é sinal que o mundo .. Parou …
Depois da efervescência do 25 de Abril, depois da ressaca do 25 de Novembro, as próprias pessoas ‘acalmaram’ e foram-se adaptando aos novos tempos que vieram. Basta ver a evolução de conhecidas figuras da nossa praça..
- O Saldanha Sanches e a Maria José Morgado, o Durão Barroso e mais alguns que não é conveniente enunciar eram do MRPP:
- O Pacheco Pereira era M-L ( Marxista-Leninista-Maoista ) – foi o fundador de um movimento estudantil no Porto ( na Faculdade de Letras ) denominado PUP – Por um Ensino ao Serviço do Povo e era conhecido pelo Pai dos Pop’s ..
- O Jorge Sampaio e o João Cravinho andaram pelo MES no início, tendo saído muito rapidamente. Mas por lá ficaram e bem até ao fim o Alberto Martins, o Ferro Rodrigues, o Augusto Mateus, o Jorge Strecht e muitos outros que se foram meter debaixo das saias do PS ….
Não os estou a criticar … também eu me sinto a evoluir … Aqui há pouco tempo apanhei-me a pensar se eu não estaria a virar à direita porque estava de acordo com algumas das políticas deste Governo na área da Educação e da Saúde …
Houve uma coisa que mudou muito também … A forma de intervenção das pessoas na vida política. Actualmente praticamente só é feita através dos Partidos Políticos (a verdade é que eles próprios se encarregaram de barrar qualquer outro tipo de intervenção). A verdade é que eu sempre pensei que a intervenção política se faz no dia a dia, nos mais pequenos gestos, até na forma como se conduz o carro no caminho para o emprego … Não há um periodo do dia em que nos desligamos da política e podemos cometer as maiores atrocidades aos nossos ideais e outro período do dia em que decidimos … agora vou fazer politica e então esses ideais vêm à tona e, qual OMO Lava mais Branco, ilumina toda a nossa actuação ….
A forma de fazer política mudou muito e afastou as pessoas da possibilidade de serem mais donas do seu próprio destino. Afastou-as dos políticos, afastou-as da intervenção cívica … acomodou-as também. Falo por mim que tantas vezes me sinto acomodado a, simplesmente, ir votar de 4 em 4 anos, sabendo que nunca votarei em algo que acredite mesmo ….
Vou ficar por aqui para não maçar … mas , se houver debate, principalmente com a geração mais nova (=rasca), cá estarei ….
Decide como queres publicar isto. Se calhar também o vou por no Bacalhau ….
Beijos
Luis .. o Tio …
Ver as eleições já não é o que era … Ainda me lembro que quando estava a ver uma delas em casa do João Outeiro, bem sentadinho no sofá, ao debruçar-me para pegar no copo de wiskey, senti uma dorzinha conhecida no lado esquerdo do peito e disse … ‘ Merda … outro pneumotorax ..’ .. e lá fui para o hospital ver na sala de espera o resultado das eleições ….
Também me lembro de outra muito especial …. Eu , a Tetá e a Clara ( que tinha dormido lá emcasa…) votamos no Porto pela manhã …. Fomos almoçar ao GambaMar ( que luxo ) um bacalhau à Brás ( e não à Brasquez ), seguimos para o Hospital de Gaia e terminamos na casa de saúde da Avenida da Liberdade onde nasceu o Gonçalo no meio da multidão ….
Também tenho umas recordações fugazes do nascimento do Tiago no dia em que o Ramalho Eanes foi eleito Presidente da Republica …..
Estas foram as que tiveram consequências bem directas na minha vida …. A outra que recordo bem foram as primeiras eleições depois do 25 de Abril, para a Assembleia Constituinte que haveria de elaborar a nossa Constituição … A desilusão dos PC’s pelo resultado fraco que tiveram ( comparado com o que previam e com o que o barulho da rua faria esperar ) só foi suplantada pela nossa desilusão pelo resultado quase ridículo do MÊS …
Era o tempo do idealismo … do sonho um pouco utópico .. do imaginário de uma sociedade mais justa, sem desigualdades , com oportunidades iguais para todos, com justiça ….
Também rapidamente acabei por perceber que a chamada extrema esquerda da altura, onde o MÊS acabou por se enfiar apesar de um pouco a contra-gosto dos maoistas ( UDP ) e dos trotskistas ( LCI ) e outros grupinhos do género, estava a ser completamente instrumentalizada pelo PCP que nos ‘mandava’ para a frente e depois esperava recolher os desperdícios, ou os louros da vitória. Isso foi patente no 25 de Novembro em que, até À última, o PC aguardou para ver que lado da barricada deveria tomar e acabou por isolar completamente a esquerda dita revolucionária. Caso tivesse avançado e fosse vitoriosa essa esquerda , rapidamente seria esmagada pelo PC que tomaria conta da situação com a sua enorme organização …
Mas .. enfim … não te vou maçar com esses dados …
O importante é perceber que as coisas mudaram …. Se olhares para a constituição da Asembleia da Republica logo de pois do 25 de Abril, a que resultou das primeiras eleições constituintes e a comparares com a de agora a diferença de carácter, de capacidade intelectual, de brilho parlamentar, de honorabilidade ética é … gigantesca …. É verdade que homens como Freitas do Amaral e Amaro da Costa, Sá Carneiro e Magalhaes Mota, Salgado Zenha e Mário Soares, Carlos Brito, Álvaro Cunhal e Vital Moreira tinham um nível intelectual incomparavelmente superior aos políticos de agora. Eram profissionais da política, como acontece hoje, mas a integridade, a fidelidade a ideais , a competência para os defender a todo o custo , eram insuperáveis.
E isso mudou .. porque, naturalmente, os tempos passaram e o pais evoluiu.
Muita coisa mudou tb nas mentalidades … Na minha opinião a competitividade exacerbada que se vê nos dias de hoje e que começa logo nos banquinhos da escola (muito mais do que antes) foi uma mola impulsionadora enorme para que isso acontecesse.
Porque nos admiramos que no local de trabalho as pessoas se tramem umas às outras se elas foram ensinadas desde a escola primária a ser sacanas com os colegas do lado.
Também havia sacanas nessa altura … claro … e bem sacaninhas … mas o ritmo de vida , a ideologia propagandeada todos os dias na TV era, apesar de tudo bastante diferente …
Havia a Cornélia, em vez de haver os ‘Idolos’ .. era um concurso na mesma .. com competição e prémios e tudo .. mas diferente … porque as pessoas eram, naturalmente, diferentes …
ATENÇAO – eu não sou dos que acham que a geração actual é a geração rasca …. A geração actual será sempre RASCA para aqueles (da geração antiga ou da própria) que não forem capazes de perceber que as coisas evoluem , nada fica parado … que nunca haverá duas gerações iguais e, quando isso acontecer, é mau sinal .. é sinal que o mundo .. Parou …
Depois da efervescência do 25 de Abril, depois da ressaca do 25 de Novembro, as próprias pessoas ‘acalmaram’ e foram-se adaptando aos novos tempos que vieram. Basta ver a evolução de conhecidas figuras da nossa praça..
- O Saldanha Sanches e a Maria José Morgado, o Durão Barroso e mais alguns que não é conveniente enunciar eram do MRPP:
- O Pacheco Pereira era M-L ( Marxista-Leninista-Maoista ) – foi o fundador de um movimento estudantil no Porto ( na Faculdade de Letras ) denominado PUP – Por um Ensino ao Serviço do Povo e era conhecido pelo Pai dos Pop’s ..
- O Jorge Sampaio e o João Cravinho andaram pelo MES no início, tendo saído muito rapidamente. Mas por lá ficaram e bem até ao fim o Alberto Martins, o Ferro Rodrigues, o Augusto Mateus, o Jorge Strecht e muitos outros que se foram meter debaixo das saias do PS ….
Não os estou a criticar … também eu me sinto a evoluir … Aqui há pouco tempo apanhei-me a pensar se eu não estaria a virar à direita porque estava de acordo com algumas das políticas deste Governo na área da Educação e da Saúde …
Houve uma coisa que mudou muito também … A forma de intervenção das pessoas na vida política. Actualmente praticamente só é feita através dos Partidos Políticos (a verdade é que eles próprios se encarregaram de barrar qualquer outro tipo de intervenção). A verdade é que eu sempre pensei que a intervenção política se faz no dia a dia, nos mais pequenos gestos, até na forma como se conduz o carro no caminho para o emprego … Não há um periodo do dia em que nos desligamos da política e podemos cometer as maiores atrocidades aos nossos ideais e outro período do dia em que decidimos … agora vou fazer politica e então esses ideais vêm à tona e, qual OMO Lava mais Branco, ilumina toda a nossa actuação ….
A forma de fazer política mudou muito e afastou as pessoas da possibilidade de serem mais donas do seu próprio destino. Afastou-as dos políticos, afastou-as da intervenção cívica … acomodou-as também. Falo por mim que tantas vezes me sinto acomodado a, simplesmente, ir votar de 4 em 4 anos, sabendo que nunca votarei em algo que acredite mesmo ….
Vou ficar por aqui para não maçar … mas , se houver debate, principalmente com a geração mais nova (=rasca), cá estarei ….
Decide como queres publicar isto. Se calhar também o vou por no Bacalhau ….
Beijos
Luis .. o Tio …
( este é um contributo para um magnífico post da Ana no Blogue de Bruxelas ..)
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