terça-feira, 11 de setembro de 2007

Verão Quente .... e outras confusões ...


Esta posta estava para ser um comentário ao texto do El Nando mas , comecei a escrever e foi sempre a aviar ... Resolvi po-lo aqui ....


Começo por dizer que gostei imenso deste post do ElNando por terras do Norte não só pelo conteúdo mas também pela clareza com que as ideias são expressas.

È verdade que muita da história do 25 de Abril , e particularmente do famoso Verão Quente de 75, ainda está por fazer.

A intensidade com que se vivia o dia a dia, o empenhamento mostrado pelas pessoas na sua generalidade, independentemente do lado da barricada em que estavam, a generosidade com que se entregavam a uma tarefa de reconstrução que em muitos casos assumiam como sua, foi talvez o que mais me marcou nesse período. Aquele bilhetinho que falava na Batalha da Produção estava relacionado com uma coisa extraordinária que se passou naquele tempo – por iniciativa de Sindicatos, Comissões de Trabalhadores e com o incentivo do Ministério do Trabalho na altura a cargo de um Major aviador ( Costa Martins, acho ) conectado com o PComunista, o pessoal decidiu ‘doar’ um dia de trabalho ao Estado , isto é, o salário de um dia de trabalho não era recebido pelo próprio e deveria ser entregue pelos patrões ao Estado. E assim foi. Suponho que não há verdadeiras estatísticas sobre o resultado desta iniciativa mas foram umas largas centenas de milhar que o fizeram. Conseguem imaginar isso possível nos dias de hoje ..?

A imaginação estava também na rua e expressava-se, entre outras formas, nos murais políticos e nos imensos auto-colantes que foram aparecendo sobre os mais diversos temas. Há um livro fantástico do sociólogo Boaventura Sousa Santos que, sendo quase factual desse conturbado período, tem imensa informação sobre a sequência dos acontecimentos. Muito bem ilustrado, repleto de fotografias, constitui uma amostra do que se ia passando ( El Nando. Tenho esse livro lá em casa e posso emprestar-to desde que com uma volta na ponta ).

As transformações sócio-culturais foram enormes e, que eu tenha conhecimento, só o António Barreto as analisou de uma forma pedagógica nos recentes documentários que passaram na TV. Estou certo que se tivessem passado uns meses antes o cabrão do Salazar não tinha ganho aquele concursozito para o melhor português.
Esses documentários deveriam ser matéria de estudo obrigatória nos primeiros anos do ensino oficial.

A participação popular foi evidente nesse período apesar do peso enorme ( e até excessivo ) das chamadas ‘vanguardas esclarecidas’ no processo revolucionário. Esse peso excessivo provocou , na maior parte dos casos, a instrumentalização das movimentações populares permanentes aos desígnios e objectivos das referidas vanguardas.

O MFA-Movimento das Forças Rmadas, que detinha o poder nessa altura, também reflectia essa ‘divisão ‘ da sociedade civil e a propoaganda e manipulação da informação foram determinantes na evolução dos acontecimentos.

Dentro do MFA havia, fundamentalmente, 3 sectores organizados:

- Os Gonçalvistas ( Vasco Gonçalves, Rosa Coutinho, Judas, Martins Guerreiro ….), claramente ligados ao PC e seus aliados
- O Grupo dos Nove ( Melo Antunes, Vasco Lourenço, Sousa Franco, Charais ), que , sendo o grupo mais heterogéneo, acabou por concentrar toda a direita, desde o Part. Socialista até aos extremistas da direita.
- O COPCON ( Otelo e sus muchachos ), ligado aos grupos da chamada Esquerda Revolucionária ( UDP, MES, LUAR, PRP-BR )

Esta tendência golpista que se sentia dentro do MFA dava uma ideia falsa de poder a cada uma das forças políticas que estavam por detrás, isto é, o poder que cada um destes sectores efectivamente possuía para influenciar a evolução da ‘revolução’ não tinha correspondência real no ‘futuro’ voto expresso pelas massas populares em Eleições ( a desilusão dos resultados das primeiras eleições constituintes no seio da esquerda foi evidente, nomeadamente para o PC que pensava que iria ter um peso eleitoral semelhante ao que os Paridos Comunistas Italiano ou Francês chegaram a ter nos anos 60-70).

Por outro lado, a ilusão que o grupo do COPCON tinha de comandar a situação era genialmente aproveitada pelos Gonçalvistas ( e pelo PC ) para ir conquistando poder, sem se comprometer directamente com rupturas violentas. A táctica era, mandar os fedelhos dos esquerdistas à frente e depois, se desse certo, ‘comê-los de cebolada, se não desse, abandoná-los ao seu radicalismo. ( Isto foi evidente no famoso 25 de Novembro em que há um recuo evidente do PC-Gonçalvistas que deixou completamente isolado o COPCON ). A esta táctica não foi estranho também os objectivos geo-estratégicos da URSS na altura. Nenhum dos blocos em luta na Guerra Fria estava interessado num país de feição comunista na Península Ibérica. A URSS já tinha a sua vitória com a forma como a descolonização se processou garantindo a independência das ex-colónias sob o signo de partidos da sua confiança ( FRELIMO em Moçambique, MPLA em Angola, PAIGC na Guiné-Cabo Verde )

Continuo a pensar que o grande erro da chamada Esquerda Revolucionária foi pensar que podia conquistar efectivamente o poder, sem ver que quem tinha uma estrutura efectivamente organizada na rua era o PC.

Exemplo disso foi que, no dia a seguir à difusão de um famoso documento de Aliança Povo-MFA aprovado na Assembleia do MFA, e que consagrava um progressivo aumento de peso de estruturas populares organizadas ( Comissões de Trabalhadores, Comissões de Moradores … ) a estrutura do PC do Norte organizou-se e movimentou-se junto das populações e, de um momento para o outro, surgiram 200 Comissões de Moradores na área de Gondomar, que dominaram completamente a estrutura mais global que representação popular do Grande Porto.

Ingénuo o macaco a pensar que podia comer o elefante so por estar sentado em cima dele …..

Por outro lado, ao fazer isto, a Esquerda Revolucionária afastou-se do Grupo dos Nove e não foi capaz de perceber que, ao faze-lo, facilitava a instrumentalização desse grupo por toda a direita unida. Dentro deste grupo havia muitas facções, a mais interessante e importante das quais era a liderada por Melo Antunes, inquestionavelmente um homem de esquerda com muitas ligações à Maria de Lurdes Pintassilgo e que defendia uma via Terceiro-mundista aproveitando as ligações de Portugal a África. Lamentavelmente a esquerda , muito por culpa do PC, não o soube aproveitar.

Enfim … muito havia para dizer sobre este assunto e haverá concerteza opiniões diversas das minhas. Achei interessante po-las aqui para que o pessoal mais novo se vá apercebendo de algumas histórias loucas desse tempo.

È verdade o que o Nando diz sobre o comprometimento da actual geração no poder com estes acontecimentos.

Na altura eu era militante activo do MES. Era a carne para canhão de outros objectivos e, como qq puto de 18 anos, atirei-me a essa tarefa cheio de idealismo e generosidade. Confesso que adorei aquela época. Não a trocava por nada .. Nunca fiz tantas directas seguidas e nunca a adrenalina subiu tão alto …

O MES era conhecido por ser o Partido dos Intelectuais. Faziam umas análises, escreviam uns comunicados muito bem redigidos .. eram inofensivos. Infelizmente o MES começou a tentar ser igual aos outros e aí .. ficou demasiado parecido com a UDP e deixou de fazer sentido. Ferro Rodrigues, Alberto Martins, Augusto Mateus, António Barreto ( numa fase inicial ), Celso Cruzeiro, até Jorge Sampaio e Joao Cravinho ( esteve só no movimento de criação e saiu na primeira cisão ), Teotónio Pereira , todos actualmente figuras importantes do PS, por lá passaram …..

O Bacalhau está a ressurgir aos poucos … Como ninguém se pronunciou vou mesmo alarga-lo a outro pessoal.

Para já vai seguir convite para o Xico Rangel e para o Chico Fialho …( Quem sabe não terão uma visão bem diferente do Verão Quente ) e também para a amiga da João que já mandou uma posta interessante num comentário

2 comentários:

Activix disse...

O livro parece ser interessante,se for emprestado sera devolvido intacto e inteiro. E exactamente isso que ando a procura. Que continuem a vir as historias e analises.
el nando

Activix disse...

so mais uma coisa, para dizer que os documentarios do antonio barreto estao disponiveis na net, no google video, sob o nome de Portugal-um retrato social(sao 7, acho), de maneira que os emigrantes desta vez nao se podem queixar de nao os terem visto(emigrantes e aqueles que nao os viram quando passaram na rtp)